Pelos sentidos



(para Yara Manier)

A lembrança se dá pelos sentidos. Pelo cheiro do perfume que mantenho no frasco, a válvula quebrada do vaporizador parecendo dizer "deixe assim, aqui dentro, para se lembrar". Como se fosse possível esquecer.
Dá-se também pelo tato. Uma sensação de roçar de pele, da cabeça descansando no peito, da maciez do colo. Minha mãe tinha colo macio. Ela então passava os dedos pelos meus cabelos, descia e subia da nuca ao topo. Para meu desespero. Na franja não, mãe. Não gosto. E ela sorria e compreendia. Coisa de quem tem cabelos finos.
Às vezes, o carinho era nos braços e, em sequência, sempre vinha o comentário de que estavam frios. Por que não se agasalha? Minha mãe era uma gaúcha atípica. Toda porta aberta era corrente de ar; toda brisa era cortante; o ar fresco do outono, o anúncio de um inverno terrível.
No verão, quando o calor chegava, me surpreendia. Comprava ventarolas de papel, oferecia carona em seus abanos e clamava pelo frio. E meus cabelos finos esvoaçavam. Quando o calor era intenso, suspendia os carinhos − nem sequer me tocava −, mas substituía os almoços por sorvete. Dias e dias de flocos e baunilha.
Há também a lembrança auditiva. Tinha uma voz mansa, nenhuma canção, um choro mudo, mas risadas incontroláveis. Acessos de riso. O prato montanhoso do tio comilão, o gesto estabanado do cabeleireiro, a conversa lengalenga da velhinha na fila, e ela me lançava um olhar maroto, de cumplicidade e rápida retirada para rirmos juntas e escondidas.
O paladar. É seu o livro de receitas de capa xadrez, a foto da cozinheira com bigode de chef. Receitas antigas com nata, dúzias de ovos e outras ameaças ferozes ao colesterol do novo milênio. São de minha mãe as expressões "tão doce de coçar a garganta", "tão azedo de estalar os ouvidos". E me lembro delas quando evito limonadas, doces de leite, ambrosias.
Pela visão, vejo seus quadros, aquarelas, esboços, fotografias. Procuro semelhanças em nossos traços físicos e experimento certa frustração: não tenho as feições de minha mãe, não herdei suas estruturas visíveis. Parecem ser só meus os braços, as pernas, os quadris, os seios, os pés, as mãos. Também não tenho seu temperamento. Onde está você em mim?, lanço a pergunta. E a resposta brota, calma e pausada, nessa fonte inesgotável de sentidos: Estou aqui, inscrita em ti.

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