Beijo-te





Disse que era designer gráfico, foi criado pela mãe e morava sozinho. Depois contou que a mãe tinha uma tartaruga com quem conversava horas a fio e que ele passava os finais de semana em seu sítio em Lumiar. Com o tempo, disse que se cortava.
Meu cérebro registrava informações e produzia imagens: prédio árido, escadas e corredor cinzentos. Apartamento espartano e encardido, sofá de corino, tapete puído e desbotado. Na parede, uma réplica ordinária da Santa Ceia. Cama de casal com colcha de chenile e armário de duas portas.  Cortina plástica no boxe. Cozinha pequena, azulejos brancos, área acoplada. Tanque, varal, planta ressecada, bacia amassada de metal; dentro dela, pedras, água e uma tartaruga.  Uma mulher fumando, com olhar parado no basculante, empreendia um monólogo sem fim.  
Sítio arborizado e úmido, casa de tijolos aparentes, um cômodo só. Sofá-cama, tênis Nike, jeans e camisa no chão. Pia, fogão à lenha, mesa com restos de pão e repingos de café. Banheiro de cimento batido e toalha molhada. Rio atravessando a propriedade. Daniel sem camisa, latinhas de cerveja no chão, cortando bambus,  cigarro de maconha na boca.  
Prédio moderno na Av. Rio Branco, saguão de granito, elevadores espelhados. Sala refrigerada, esquadrias de ferro e paredes de vidro, aroma indistinto. Daniel na frente de um computador, camisa social, criando capas de bestsellers.
Mãe e filho almoçando juntos, panela no fogão, colher caída ali dentro. Diálogos entrecortados. 
Daniel em casa, sentado no chão de tacos encerados, passando estilete no corpo.
− Por que faz isso? – perguntei.
Em resposta, silêncio e olhar de menino ferido. Meu novo amigo balançava a perna sem sentir, seu joelho fazia tremer a mesa. Com uma das mãos, impedi a garrafa de cair, com a outra, parei o movimento de sua coxa.
Arrependi-me de ter perguntado. Lembrei-me das mulheres petrificadas dos quadros de minha mãe, dos cabelos curtos de minha irmã, dos colóquios de meu pai. Amigos e namorados passaram de repente.
Lembrei-me de momentos íntimos e só meus. De sensações pulverizadas, emoções deslocadas, visibilidade turva. Imagens metafóricas de frascos de spray e de cortinas de fumaça me vieram à mente.
− Porque assim sei onde dói.
Estendi a mão ao meu amigo e percebi a intensidade de sua resposta. Tinha os dedos muito frios e os cabelos louros e finos umedecidos pelo sereno. Que longa estrada teria pela frente.
Beijei-lhe os cortes sob os esparadrapos, beijei seu rosto, sua boca. Nada mais poderia fazer além de beijá-lo.


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