Os braços e a vida



                                                                                                   
Encontraram-se por acaso, da forma como acontecem os melhores encontros: numa manhã de domingo, na fila da padaria.
Fazia um friozinho apesar de já ser verão, e os braços do rapaz estavam arrepiados. Ela, por sua vez, tinha o rosto afogueado, de quem acabara de correr quilômetros em volta da cidade.
Ele sentiu o calor que irradiava de um corpo logo atrás. Ela percebeu os cabelinhos em pé nos braços gelados do rapaz à frente.
Flávio virou-se, Miska sorriu. Belos olhos azuis, pensou ele. Cedeu ao hábito de consultar o relógio, fingiu impaciência − como se houvesse muito a fazer numa manhã de domingo – e puxou assunto:
− Frio, não?
− Frio? – Miska voltou a sorrir. − Não sei... eu estava correndo. Talvez um pouquinho, mas é cedo ainda, daqui a pouco esquenta. – Carioca, só pode ser!, pensou. Só um carioca sentiria frio numa manhã de sol em Nova Friburgo.  − Carioca?
− Sim. Você?
− Não. Su-í-ça – disse, pausadamente, achando que ele se surpreenderia.  Não se surpreendeu. Sabia da presença de suíços na serra fluminense, desde meados Século 19. − Mas moro aqui desde os doze anos.
Bonita, pensou Flávio. Voz. Cabelos, olhos, pele.
Simpático, pensou Miska. E tão branco quanto eu. Carioca de apartamento..., riu mentalmente.
− Mesmo? – perguntou ele, em tom conversacional. − E o que faz aqui? Treina para as Olimpíadas?
Humm, simpático e bem-humorado.
− Não, minha família tem uma livraria em São Pedro da Serra, trabalho lá. E você? Foge da praia? – Também tinha humor.
− Fujo – respondeu sem pestanejar. − Estamos passando uns dias aqui, na casa de um amigo. Livraria? – Interessou-se, recém-formado em filosofia, era amante dos livros.
− Estamos?
− Sim, estamos. Minha mãe e eu. – Sem querer ser pretensioso, julgou ver certo alívio nos olhos da moça. Gostou disso, gostou dela, queria mais. – A fila está muito lenta, vamos sentar ali fora para tomar um café? – perguntou, apontando para as mesinhas na calçada.
− Vamos, claro. – Também sentia vontade de conversar mais. − Seu nome?
− Flávio. O seu?
− Miska. 
Flávio sorriu. Miska lembrava marca de ração de gato.
Sentaram-se à mesa, Flávio e Miska. Ele tomando café para esquentar, ela tomando energético para refrescar. E os minutos foram passando, transformando cafés em capuchinos, energéticos em sucos e sendo complementados por sanduíches partilhados. E os minutos se acumularam e viraram horas.
Tinham assunto de sobra. A cada descoberta, outra aparecia mais curiosa e contrastante: casa em Nova Friburgo/apartamento no Leblon, livraria pequena/ monitoria em cidade universitária, banho de rio/praia, jogging/rede na varanda. E também não contrastantes: sem namorado/sem namorada, livraria/filosofia, francês/Sartre, literatura/literatura, literatura/filosofia, filosofia/Deus?, Deus?/Deus?

***

Era esse momento que Flávio rememorava agora, saudoso, um sorriso esboçado nos lábios, os braços arrepiados de frio, sentado à mesa na calçada da mesma padaria, duas décadas depois.
Dali, ele e Miska haviam saído praticamente namorando. Ela o convidara a conhecer sua livraria no dia seguinte, os livros que vendia e lia. A casa em que morava, os bares em que bebia, as trilhas em que corria. Flávio depois a levara ao Rio, mostrara sua pequena biblioteca, a faculdade em que se formara, os cafés em que encontrava amigos, as livrarias, a praia, a rede na varanda.
E a vida então passou a ser a dois: duas pessoas, duas cidades, dois lugares. Ora ali, ora lá. Uma friburguense agitada e esportista, de terra fria e pele quente e um carioca pacato, filosófico, de terra quente e pele fria.
Anos mais tarde, dois viraram quatro. Uma suíça, um carioca e duas menininhas friburguenses de sardas, capacete e joelheiras, que acompanhavam a mãe em suas bicicletas e catavam caramujos para o pai.
Uma vida feliz, uma família feliz, uma escolha feliz, refletia ele, em seu posto na calçada, observando os casais que passavam de mãos dadas.
Vez por outra, com sua mania de medir o tempo, olhava o relógio, corria os olhos pela padaria. Embora reformada, a fila persistia, longa e demorada, com pessoas conversando durante a espera. Novos encontros teriam se dado ali, imaginou. Colocou os óculos e voltou à leitura de seu livro de poemas. O tempo custa a passar quando estamos sozinhos.
Subira a serra de carro na segunda-feira, o estresse do trabalho, as pilhas de provas para corrigir, os prazos apertados, os seminários a programar lhe ocupavam a mente, tanto a desviando de suas angústias pessoais quanto a exaurindo. Ali, talvez conseguisse trabalhar.
Estava psicologicamente cansado. E agora, percebia, melancólico também. Sozinho, solitário. Não suportava a solidão.  Odiava a casa vazia. As camas arrumadas, com cheiro de ninguém. Por que não ficara no Rio? Por que sempre insistia nessas idas a Nova Friburgo para colocar os dias em dia, quando o resultado era sempre pior?
  Sentia saudade de Miska. Nada daquilo tinha sentido sem ela. E as meninas, o que estariam fazendo? Por que não telefonavam?

A fiandeira
(Iracema Macedo)

Eu fiaria um manto inteiro hoje
enquanto você dorme
Há lembranças que não tenho onde guardar
e que só depositaria bem numa fogueira


Não há memória, nem nomes,
nem arcas, nem caixas
que possam conter tanto furor



Eu fiaria um manto inteiro
mas um manto não serve
Poderia inventar lendas
narrar um sonho aos marinheiros
mas nem lendas, nem sonhos,
nem marinheiros poderiam exprimir
o que vivi



Eu fiaria um manto inteiro hoje
mas não serve um manto
não serve enterrar segredos numa ilha
e esperar o temporal passar



Há dias em que os raios são a única saída



Lia pela terceira vez a primeira estrofe, quando sentiu o calor irradiar de um corpo logo atrás. Virou-se meio no susto e recebeu um beijo suado. Em seguida, ouviu um falatório familiar, ganhou mais dois beijos e, para não perder o hábito, dois caramujos numa caixinha de fósforos.
− Ué, já chegaram? ­– Seu rosto iluminou-se e, mais uma vez olhou o relógio. – Não esperava vocês tão cedo.
− A gente veio antes por causa do trânsito. Você não estava em casa, aí fomos correr. – Abraçou-o. − Ai, pai, você está gelado!
Flávio afastou as cadeiras para Miska e as meninas sentarem, pediu água, suco, sanduíches e energéticos. Ouviu-as reclamarem do calor, contarem as novidades da semana e deixou-se envolver por suas conversas. Olhou seus rostos afogueados que tanto amava e agradeceu a Deus? por tê-las com ele, por tudo que lhe davam. Pelo tanto que lhe aqueciam os braços e a vida.