Pelos sentidos
(para Yara Manier) A lembrança se dá pelos sentidos. Pelo cheiro do perfume que mantenho no frasco, a válvula quebrada do vaporizador parecendo dizer "deixe assim, aqui dentro, para se lembrar". Como se fosse possível esquecer. Dá-se também pelo tato. Uma sensação de roçar de pele, da cabeça descansando no peito, da maciez do colo. Minha mãe tinha colo macio. Ela então passava os dedos pelos meus cabelos, descia e subia da nuca ao topo. Para meu desespero. Na franja não, mãe. Não gosto . E ela sorria e compreendia. Coisa de quem tem cabelos finos. Às vezes, o carinho era nos braços e, em sequência, sempre vinha o comentário de que estavam frios. Por que não se agasalha? Minha mãe era uma gaúcha atípica. Toda porta aberta era corrente de ar; toda brisa era cortante; o ar fresco do outono, o anúncio de um inverno terrível. No verão, quando o calor chegava, me surpreendia. Comprava ventarolas de papel, oferecia carona em seus abanos e clamava pelo frio. E meus c...