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Mostrando postagens de maio, 2019

Pelos sentidos

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(para Yara Manier) A lembrança se dá pelos sentidos. Pelo cheiro do perfume que mantenho no frasco, a válvula quebrada do vaporizador parecendo dizer "deixe assim, aqui dentro, para se lembrar". Como se fosse possível esquecer. Dá-se também pelo tato. Uma sensação de roçar de pele, da cabeça descansando no peito, da maciez do colo. Minha mãe tinha colo macio. Ela então passava os dedos pelos meus cabelos, descia e subia da nuca ao topo. Para meu desespero. Na franja não, mãe. Não gosto . E ela sorria e compreendia. Coisa de quem tem cabelos finos. Às vezes, o carinho era nos braços e, em sequência, sempre vinha o comentário de que estavam frios. Por que não se agasalha? Minha mãe era uma gaúcha atípica. Toda porta aberta era corrente de ar; toda brisa era cortante; o ar fresco do outono, o anúncio de um inverno terrível. No verão, quando o calor chegava, me surpreendia. Comprava ventarolas de papel, oferecia carona em seus abanos e clamava pelo frio. E meus c...

Os braços e a vida

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                                                                                                    Encontraram-se por acaso, da forma como acontecem os melhores encontros: numa manhã de domingo, na fila da padaria. Fazia um friozinho apesar de já ser verão, e os braços do rapaz estavam arrepiados. Ela, por sua vez, tinha o rosto afogueado, de quem acabara de correr quilômetros em volta da cidade. Ele sentiu o calor que irradiava de um corpo logo atrás. Ela percebeu os cabelinhos em pé nos braços gelados do rapaz à frente. Flávio virou-se, Miska sorriu. Belos olhos azuis , pensou ele. Cedeu ao hábito de consultar o relógio, fingiu impaciência − como se houvesse muito a fazer numa manhã de domingo – e puxou assunto: − Frio, nã...

Paixão clandestina

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Cinco fileiras de mesas preenchem a sala: uma perto da porta, três   de frente para o quadro e outra junto da janela. Elas são de fórmica e nos dias frios como hoje gelam meus braços. As cadeiras fazem jogo com elas e são duras, frias também, talvez para a gente não ficar confortável demais e correr o risco de dormir. Em cada fileira há 10 lugares. Eu sou a quarta da fila do meio, estou quase no umbigo da sala,   e tenho uma visão muito boa do que acontece em toda parte. Pelos vidros da porta, vejo o movimento do corredor. Os alunos que inventam sede e vontade de ir ao banheiro só para fugir do olhar eu-sei-que-você-não-está-atento de alguns professores e da voz metálica ou arrastada de outros. Ser estudante não é nada fácil. Minha visão do quadro é excelente também. Eu nunca preciso ficar me espichando para enxergar uma palavra num canto ou noutro, e as cabeças que ficam na minha frente não chegam a atrapalhar, mesmo que às vezes eu me distraia reparando q...

Beijo-te

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Disse que era designer gráfico, foi criado pela mãe e morava sozinho. Depois contou que a mãe tinha uma tartaruga com quem conversava horas a fio e que ele passava os finais de semana em seu sítio em Lumiar. Com o tempo, disse que se cortava. Meu cérebro registrava informações e produzia imagens: prédio árido, escadas e corredor cinzentos. Apartamento espartano e encardido, sofá de corino, tapete puído e desbotado. Na parede, uma réplica ordinária da Santa Ceia . Cama de casal com colcha de chenile e armário de duas portas.   Cortina plástica no boxe. Cozinha pequena, azulejos brancos, área acoplada. Tanque, varal, planta ressecada, bacia amassada de metal; dentro dela, pedras, água e uma tartaruga.   Uma mulher fumando, com olhar parado no basculante, empreendia um monólogo sem fim.   Sítio arborizado e úmido, casa de tijolos aparentes, um cômodo só. Sofá-cama, tênis Nike, jeans e camisa no chão. Pia, fogão à lenha, mesa com restos de pão e repingos de ca...

Do atum ao mate

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A   mulher era chata, coitada. Andava pelos corredores do supermercado como se fosse o escoteiro-chefe de um grupo de lobinhos numa expedição às compras.   Com cabelos na altura dos ombros e toda parruda, os óculos de aro preto escorregavam pelo nariz cada vez que baixava o rosto para a lista em sua mão. Ao seu lado, um homem calvo, de aparência resignada, na faixa dos sessenta anos   assentia com a cabeça a cada comentário seu. − Também, como é que vai enxergar? Vem para cá e não traz os óculos! Sabia que vínhamos fazer compras e agora fica aí, batendo com o nariz nas latas de ervilha! O homem nada falava. Fingia que não ouvia e continuava a examinar as prateleiras, como se precisasse urgentemente de um transplante de córnea. Nessa hora, numa de suas narigadas na seção de enlatados, olhei-o   com comiseração. Ele percebeu meu olhar e sorriu-me, tristonho, envergonhado. Virei para o corredor seguinte onde estavam as massas, as sopas em pacote e os t...