Do atum ao mate
A mulher era chata, coitada.
Andava
pelos corredores do supermercado como se fosse o escoteiro-chefe de um grupo de
lobinhos numa expedição às compras. Com
cabelos na altura dos ombros e toda parruda, os óculos de aro preto
escorregavam pelo nariz cada vez que baixava o rosto para a lista em sua mão.
Ao
seu lado, um homem calvo, de aparência resignada, na faixa dos sessenta
anos assentia com a cabeça a cada
comentário seu.
−
Também, como é que vai enxergar? Vem para cá e não traz os óculos! Sabia que
vínhamos fazer compras e agora fica aí, batendo com o nariz nas latas de
ervilha!
O
homem nada falava. Fingia que não ouvia e continuava a examinar as prateleiras,
como se precisasse urgentemente de um transplante de córnea.
Nessa
hora, numa de suas narigadas na seção de enlatados, olhei-o com comiseração. Ele percebeu meu olhar e
sorriu-me, tristonho, envergonhado.
Virei
para o corredor seguinte onde estavam as massas, as sopas em pacote e os
temperos prontos. Continuei a ouvi-la.
−
Isso não, Alberto! Eu pedi atum. A-tum!
Meu Deus do Céu, será que não consegue pegar uma latinha de atum? É aquela ali, baixinha, onde está escrito
“Atum sólido em óleo comestível”. E tem
que ser “em óleo comestível”, porque aquele outro que vem na água não tem gosto
de nada.
Do
outro lado da divisória, ouvi o silêncio de Alberto.
Olhei para a latinha de atum escondida no
fundo do meu carrinho: “Atum sólido natural” conservado em água. Será que meu
paladar andava tão ruim assim?
O
casal virou para a mesma seção onde eu estava e, mais uma vez, nos encontramos.
Eu abastecia o carrinho com os indispensáveis pacotes de Miojo, quando o pobre sr. Alberto, num ato de liberdade e ousadia,
estendeu o braço e pegou um potinho de Cup
& Noodles.
Isso não iria passar com facilidade,
pensei. Dito e feito.
−
Alberto! Você enlouqueceu? Não sabe que essas porcarias dão câncer? Pega um
pacote de macarrão parafuso. Dois. – Com uma caneta na mão, deu um risco
veemente num tópico da lista.
Senti
vontade de rir. Fã incondicional de
massas, acho o tal macarrão parafuso
hor-ro-ro-so. Grosso,
farinhento... uma garfada e parece que a comida cresce na boca.
Sr.
Alberto continuou mudo, trocou o potinho de Cup
& Noodles pelos dois pacotes de macarrão parafuso. Senti que, novamente, virou o rosto para mim.
Talvez quisesse trocar mais um olhar de cumplicidade. Ou pedir socorro.
Saí
de perto. Não retribuí o olhar. Normalmente, quando me deparo com situações
assim, em que uma pessoa visivelmente domina a outra, e o faz de forma
escancarada para que todos percebam −
senão, onde estaria a graça? – sinto-me encabulada, constrangida, como se fosse
eu a vítima.
Resolvi
acelerar o ritmo. Tinha ainda muito o que fazer naquela manhã.
Saí
com o carrinho e fui fazendo um ziguezague, entrando e saindo dos corredores. A
voz da mulher continuava a ecoar, e, de repente, um berro:
−
Olha só! Mas não estou dizendo? Olha o que você fez! Ai, meu Deus, que
vergonha! Olha a porcariada que está esse chão! Tudo molhado. Vai chamar o
rapaz para limpar isso aqui. Anda!
Não
resisti. Dei uma espiadinha.
Sr.
Alberto deixara cair uma caixa de leite. Devia ser a mesma que eu havia pegado
e devolvido. Estava estufada, cheia de
ar. Ao cair, PLAFT! Deve ter
estourado na hora. Uma poça de leite se alastrava pelas lajotas. Pensei em minhas gatas, fariam uma festa ali.
Sr.
Alberto foi atrás do rapaz.
Parei
na seção de sucos e refrigerantes e ali me demorei alguns minutos. Vi quando o
funcionário passou com balde e esfregão. Continuei a examinar as garrafas. A
mulher falava com o rapazote, agora. Alto. Sempre alto.
Eu
estava procurando sucos que não fossem de soja – da soja, só o óleo – quando
senti uma presença ao meu lado. Mais perto do que de costume. Chegou a ser
desagradável, como uma invasão de espaço.
Olhei
com certo incômodo. Era o sr. Alberto, pobre sr. Alberto. Trocamos um olhar
inexpressivo. Fingi ignorar sua presença
e continuei a busca pelos sucos. Ele me seguiu discretamente. Senti que queria
puxar conversa. Puxou.
−
Estou procurando o mate. Mate Leão. Não estou encontrando. Viu por aí?
−
O senhor quer o mate pronto?
−
Quero. − Passaram-se alguns segundos. −Ah, aqui − disse ele.
−
Não, isso aí é Ice Tea. Vou lhe
ajudar a encontrar o mate. Espera aí...
espera aí... – Mais alguns
segundos. − Aqui, bem atrás dessa garrafa. Veja se não é.
−É.
−
Hah-hah! Bem na nossa cara, hein? – brinquei com ele.
Sr.
Alberto espantou-se. Ficou me olhando, olhando... Olhou-me tão demoradamente,
com tanta estranheza e depois com tanta ternura, que cheguei a me comover.
Quanto
tempo faria que ninguém lhe dirigia palavras descontraídas?
Talvez,
pensei em seguida, não fosse esse o caso e tudo não passasse de imaginação
minha. Devaneio meu.
Mas
senti pena. Sustentei o olhar por algum tempo e fui embora.
Ele
ficou parado ali.
Paguei
as compras e ia saindo do mercado com o empacotador que levaria as sacolas até
o carro, quando olhei de relance para um dos caixas.
Lá
estava o sr. Alberto como um dois de paus na fila, a mão sobre o ombro da esposa. Percebi que me acompanhava
com os olhos, mas não senti ímpeto de retribuir o gesto, segui em frente. Cada
um na sua.
A
temperatura estava mudando. O sol sairia de trás das nuvens. A mulher não
pararia de falar enquanto ele não parasse de ouvir.
