Paixão clandestina



Cinco fileiras de mesas preenchem a sala: uma perto da porta, três  de frente para o quadro e outra junto da janela. Elas são de fórmica e nos dias frios como hoje gelam meus braços. As cadeiras fazem jogo com elas e são duras, frias também, talvez para a gente não ficar confortável demais e correr o risco de dormir.
Em cada fileira há 10 lugares. Eu sou a quarta da fila do meio, estou quase no umbigo da sala,  e tenho uma visão muito boa do que acontece em toda parte.
Pelos vidros da porta, vejo o movimento do corredor. Os alunos que inventam sede e vontade de ir ao banheiro só para fugir do olhar eu-sei-que-você-não-está-atento de alguns professores e da voz metálica ou arrastada de outros. Ser estudante não é nada fácil.
Minha visão do quadro é excelente também. Eu nunca preciso ficar me espichando para enxergar uma palavra num canto ou noutro, e as cabeças que ficam na minha frente não chegam a atrapalhar, mesmo que às vezes eu me distraia reparando quem está com o cabelo oleoso, quem tem alergia na nuca ou está com a gola suja.
De onde estou, também tenho uma visão perfeita da janela e do que ela mostra. A janela... Ali sim mora a minha grande distração, que poderia ser o azul forte do céu, cheio de promessas para a tarde, ou as nuvens gordas que se arrastam preguiçosas, ou ainda o ninho de andorinhas que está sempre ocupado de bebês passarinhos debaixo do beiral do teatro amarelado. Mas não é nada disso. O que me distrai é uma cabeça em movimento constante, com cabelos louros e finos que ganham um brilho dourado especial quando bate o sol; a mão que levanta toda hora para fazer algum comentário.   
Uma pergunta é jogada para a sala durante a aula de ciências, e a mão sobe mais uma vez. A mão dele.
− Os fungos não podem efetuar a fotossíntese porque não têm clorofila, como as outras plantas – responde ele com naturalidade.
Eu fico encantada com as coisas que ele fala, como pode ser tão inteligente? E, sempre que posso, completo com alguma coisa também:
− É... E por isso eles não produzem o próprio alimento! – arrisco.
− Muito bem, Pedro.  Clarice. É exatamente isso – elogia a professora.
E nossos nomes, juntos assim, me deixam como se inebriada. Fico vermelha. Que droga.
Algumas meninas começam a jogar piadinha. “Clarice e Pedro, uh-huh!”, “Nhê nhê nhê...”.  Fico mais vermelha ainda. Que raiva, nada a ver. O garoto só é inteligente. E até parece que eu ia dar bola para um baixinho que bate no meu ombro. Tampinha. Pintor de rodapé. Fico quieta, não respondo nada, faço cara de quem não tolera criancice e está a fim de prestar atenção na aula.
Logo, a aula de ciências acaba e troca o professor. Geografia. Pedro vira para o lado e fica conversando com as meninas. Ele tem olhos grandes e ágeis, apoia os cotovelos no parapeito da janela, e os pelinhos do braço parecem fios de ouro tecidos pelo sol. Fala alguma bobeira com as meninas, e elas riem. Fico com a maior vontade de saber do quê.
A aula de geografia corre normalmente. Regiões e sub-regiões do Brasil. Pedro é  gaúcho, me contou algumas coisas engraçadas de lá do sul. Umas falas diferentes: sinaleira, pechada, tchê... Tem gente que ri do sotaque dele, acha estranho. Eu acho bonito. Bem que um dia eu podia ser a prenda dele.
O sinal vai tocar e todo mundo começa a ficar alvoroçado. Recreio. Estamos com fome. Quando dá a hora, é a maior barulheira de mesas arrastando e de pés batendo no chão de tábuas velhas. Velhas não, antigas. Meu colégio é antigo, o mais tradicional da Fribourg brasileira, como meu professor de francês faz questão de dizer.
 Espero minhas amigas e vou saindo com elas. Pedro vem com a gente e logo está do meu lado. Não gosto muito de andar do lado dele, ele é mesmo pequeno, será que tem problema de crescimento? Juntos, ficamos parecendo uma das palmeiras gigantes da escola e um coqueiro anão. Tento desconversar quando ele puxa assunto e invento uma desculpa para ir na frente, digo que vou guardar nosso lugar à mesa da cantina ou qualquer outra coisa assim.
Ele percebe meu comportamento esquisito, mas não fala nada. À mesa, é diferente, e os vinte minutos voam. A gente conversa e ri, bebe do canudinho um do outro e sempre dá um jeito de encostar os braços. Não há nenhum projeto de lei que planeje esticar o horário do recreio?
Na hora de voltar para a sala, tendo enrolar de novo. Ele ameaça me esperar, mas eu baixo o rosto, fingindo que procuro alguma coisa no bolso da calça jeans, só para me atrasar. As meninas que sentam na outra mesa se misturam com a gente e começam a falar com ele, que logo as faz rir de novo. Juntos, eles vão andando e eu vou seguindo atrás com duas amigas.
Aquelas meninas adoram o Pedro. Além de inteligente, ele é simpático,  o que o torna mais bonito do que  é.  Ele abraça uma delas, que retribui o abraço e não se sente incomodada por ele ser pequeno. Ele então vira para trás e olha pra mim com um sorriso de quem quer dizer alguma coisa, alguma coisa que me faça ver como sou tola.  Finjo não perceber, mas entendo a mensagem e então quem se sente pequena sou eu, encolhida, ínfima. E mais uma vez finjo buscar alguma coisa no bolso da calça – um lugar para eu me enfiar, talvez.
As meninas viram para trás para ver para quem Pedro está olhando e eu faço cara de nada-a-ver. Que saco. Tão olhando o quê?
 Entramos todos na sala. Ele e as meninas estão envolvidos numa aura de alegria e diversão que os acompanha até a janela. A janela que deixa Pedro dourado... Quanto a mim, eu me sento na minha cadeira dura, quase no umbigo da sala, onde não bate sol, não sopra vento e ninguém toca em mim, a não ser a fórmica da mesa que insiste em continuar me gelando os braços, impiedosamente.




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